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04:14

Escuto Chorona.

Em minha frente há um abajour
que aponta para uma parede.

Parei.

Tentei ressuscitar um cigarro no cinzeiro,
mas sem sucesso.

Ou não tentei o suficiente.

Então, olhei a parede
- Ela tem uma textura.

Também é um palco
e a estrela é uma mosca
que dança.

feliz ou desesperada, talvez,

mas dança!

Vai e volta,
como quem goza de um holofote.

Me observo,
Não sei se sou herói ou um degradado.

O pensamento me assalta outra vez:

O que seria se não fosse isso?
E se não fosse o que foi?
O que a mosca pensa sobre mim?

(...)

Chego a conclusão que pensamentos são inúteis,
Melhor tentar outro cigarro.

O que importa agora são as canções que me acariciam,
que me fazem companhia,
que me afagam como um abraço de mãe,

e a mosca.

Feira de Santana, 22/04/2021

Eu que me encontro
e me perco.

Que aprendi a tear.

Sei ser cego quando posso
sei ser mudo e me calo.

Sei sentir:
me convém.

Não sei ser outro.

Nem sei
se devo.

Feira de Santana, 26/03/2020

PARTIDA

Na altura do umbigo,
o parapeito.

Nas desilusões, mil razões
pelas quais se emancipam as almas.

Pelas dores, a amnésia
que corrobora com o desatino.

Pela coragem,
a covardia do ato consumado.

É fértil a terra, ventre.
que tudo dá
e arrebata.

Feira de Santana, 27/11/2018

DUPLO

I

Em minha embriaguez
afago feições,
                              danço.


Disfarço e desfaço ritmos


II

Cumprimento o inimigo.
E com um aperto de mão
digo que o amo.

Enquanto são, vivo ilusões.
Verdades ofertadas.

O Black Friday num cardápio ultrapassado.

Prostituído, penso.

E como se houvesse um caminho
distribuo certezas (as minhas).
Mas não suporto minha própria rigidez

BR242, 16/11/2018

Pensamento

I

Se duvidar,
Até com o marasmo, eu caso.

(Melhor que passar os dias enclausurado).


II

Num veio farto de pedras brutas preciosas.

-Preciosas, porém brutas.